Tradução entre Psicologia Analítica e cosmologias afro-brasileiras, com Exu, Pombagira, Xangô, Oxóssi e Nanã lidos como categorias clínicas vivas.

O que este hub faz, e o que não faz

Existe uma forma confortável de aproximar Jung das religiões de matriz afro-brasileira, e ela é falsa. É a forma que diz “Exu é o arquétipo do trickster”, “Oxóssi é o arquétipo do caçador”, e segue em frente como quem encontrou uma chave. Essa operação parece elogio. Na prática é redução. Ela pega uma cosmologia viva, com terreiro, com gente, com séculos de transmissão oral resistindo ao apagamento, e a transforma em exemplo de um conceito europeu. O Orixá vira ilustração do arquétipo. A tradição afro-brasileira entra como matéria-prima, e a teoria branca fica com a última palavra. Isso tem nome, e o nome é colonialidade.

Este hub trabalha em outra direção. A operação aqui é de tradução, e tradução de verdade tem dois lados. Jung ajuda a ler as imagens dos Orixás em chave clínica, e as cosmologias afro-brasileiras devolvem a Jung os limites do lugar de onde ele falava. Uma coisa não dissolve a outra. Exu não é “só” um arquétipo, e o arquétipo junguiano não é a medida final do que Exu é. O que interessa é o que acontece no encontro, quando os dois campos se tocam sem que nenhum mande no outro.

Falo disso de dentro. Sou psicólogo, sou negro e sou umbandista cabeça feita, com vivência de anos no terreiro. Não chego às matrizes afro-brasileiras como pesquisador que visita um objeto, chego como alguém que vive a tradição e também a estuda na clínica. Esse lugar não é neutro, e é justamente por não ser neutro que ele funciona. A leitura ganha lastro quando a experiência sustenta a voz, em vez de pedir a Jung uma permissão para existir. A base autoral desse trabalho está no artigo “Jung na encruzilhada, ou lendo Jung a partir de Exu”, publicado em periódico junguiano e disponível para consulta pública.

Uma distinção importa antes de seguir. As cosmologias afro-brasileiras não são folclore, e a diferença não é de gentileza, é técnica. Jung descreve, em Tipos psicológicos, o que separa um símbolo vivo de um signo morto:

O símbolo só se conserva vivo enquanto estiver repleto de significado. Mas logo que o seu sentido se esclarece, quer dizer, quando se encontra a expressão que formula melhor do que o símbolo a coisa procurada, esperada ou pressentida, pode-se então afirmar que o símbolo morreu (JUNG, 1921/2020, OC 6).

Exu, Pombagira, Xangô, Oxóssi e Nanã são símbolos vivos. Estão repletos de significado porque continuam em uso, no terreiro e na vida de quem os cultua, e não há tradução que esgote esse significado. Tratá-los como folclore é tentar matar o símbolo, fechar o sentido, transformar o que está vivo em peça de museu. Este hub recusa esse movimento. Cada figura aqui aparece com função declarada, teórica, clínica, cultural ou ritual, e nunca como enfeite.

E há um ponto que costuma se perder, então digo com todas as letras. Observar a dimensão mitológica e simbólica dos Orixás não apaga a dimensão ontológica deles. No terreiro, os Orixás são. Não são metáfora do psiquismo, não são figura de linguagem para falar de outra coisa. Olhar a face mitológica, que é a que permite o diálogo com Jung, não exige negar que, para quem cultua, eles têm existência própria. As duas dimensões convivem, e a leitura clínica trabalha uma delas sem ter autoridade nenhuma para cancelar a outra.

Exu, o Senhor da Encruzilhada

Figura ritual em madeira representando Exu, arte iorubá da Nigéria
Figura ritual de Eshu (Exu), Nigéria, 1880-1920. Wellcome Collection, CC BY 4.0.

Comece pela encruzilhada, porque é dela que tudo parte. A encruzilhada é o lugar onde os caminhos se cruzam, onde é preciso escolher, onde o que vinha por uma direção pode seguir por outra. Em chave clínica, isso descreve com precisão a fronteira entre a consciência e o inconsciente. É ali que o material psíquico circula, que o que estava embaixo sobe, que a mensagem passa de um lado para o outro. E quem governa esse trânsito, na cosmologia, é Exu.

A função de Exu, lida como categoria clínica, é a mediação. Exu é o princípio do movimento e da comunicação, aquele que faz passar. Sem Exu nada circula, nenhuma oferenda chega, nenhum recado é entregue. Na psique, essa é a descrição de uma função que nenhuma teoria do aparelho psíquico pode ignorar: a função que liga instâncias separadas, que permite que o consciente e o inconsciente troquem alguma coisa em vez de ficarem mudos um para o outro. Quando essa função emperra, a pessoa fica sem trânsito interno, repetindo, travada na mesma encruzilhada sem conseguir tomar caminho nenhum.

Aqui o diálogo com Jung fica produtivo, e fica produtivo dos dois lados. Jung nomeou uma função psíquica que faz exatamente esse trabalho de ligação entre opostos, a função transcendente, descrita no ensaio de mesmo nome reunido em A estrutura e a dinâmica da psique (OC 8). É a função que produz um terceiro termo quando a consciência e o inconsciente se confrontam, sem que um anule o outro. A proximidade com Exu é real e vale a pena ser pensada. Mas a tradução não termina em equivalência. Exu não é a função transcendente com roupa nova, e a função transcendente não captura o que Exu carrega de corpo, de rua, de riso, de transgressão fértil. O encontro ilumina os dois conceitos e deixa um resto em cada um. Esse resto é o que mantém a tradução honesta.

Esse arco tem percurso. “EXU: O Senhor da Encruzilhada entre Consciência e Inconsciente” foi apresentado na 15ª Mostra Regional de Práticas em Psicologia do CRP-RJ, em 2022, e a investigação seguiu no VIII Seminário Caminhos Junguianos, em 2024.

Pombagira, o casal psíquico

Imagem de Pombagira, a face feminina da encruzilhada
Pombagira Rainha. Foto: Junius, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons.

Exu não vem sozinho. Pensar Exu sem Pombagira é pensar metade. Pombagira é a face feminina da encruzilhada, e o par Exu e Pombagira forma uma unidade psíquica que a clínica precisa ler junto, como casal, não como duas figuras avulsas. É aqui que o hub encontra um dos seus territórios mais delicados e mais necessários.

A função de Pombagira, como categoria psíquica, toca o que a moral colonial e patriarcal mais tentou silenciar. Desejo, potência feminina, o corpo como lugar de saber, a recusa de ocupar o lugar submisso que se reservou à mulher, e em especial à mulher negra. Pombagira não é a caricatura que o preconceito construiu. É uma imagem de soberania feminina que sobreviveu a séculos de tentativa de apagamento, e que no terreiro segue ensinando sobre limite, sobre prazer, sobre dignidade. Ler essa imagem na clínica é abrir espaço para um material que muita teoria europeia nunca soube acolher sem julgar.

O par Exu e Pombagira pode ser lido como uma imagem de união de opostos, uma coniunctio situada na cultura brasileira, em que o masculino e o feminino psíquicos não se hierarquizam, se completam na encruzilhada. Esse trabalho é desenvolvido em coautoria com a psicóloga Paloma G. M. Araujo (Instagram @psipalomamuniz), na comunicação “Hiero(r)gasmos na Encruzilhada: análise simbólica do casal psíquico Exu e Pombagira”, apresentada no VIII Seminário Caminhos Junguianos, em 2024. A coautoria não é detalhe de crédito, é parte do método. Pensar Pombagira a partir da experiência feminina, com quem a vive, é o que impede a leitura de recair no mesmo olhar de fora que ela sempre enfrentou.

Xangô, a justiça interna

Oxê, cetro com machado de dois gumes, emblema de Xangô
Oxê de Xangô. LACMA, domínio público, via Wikimedia Commons.

Xangô é o trovão, é a pedra, é o machado de dois gumes. E é, lido como imagem arquetípica, a função psíquica da justiça. Não a justiça dos tribunais, a justiça interna, aquela que pesa, que mede, que estabelece proporção entre as forças da psique. O machado de Xangô corta para os dois lados, e essa é a imagem exata de uma justiça que não tem favorito, que aplica a mesma medida ao que se quer poupar e ao que se quer condenar.

A função, declarada, é a da medida e da lei interna. Toda psique precisa de uma instância que julgue, que diga o que é justo, que recuse tanto a tirania quanto a impunidade dentro de casa. Quando essa função falha por excesso, vira autocrítica cruel, tribunal interno que condena sem trégua. Quando falha por falta, a pessoa perde o senso de proporção, não consegue se responsabilizar nem cobrar o que lhe é devido. Xangô nomeia o ponto de equilíbrio, a justiça que pesa antes de cortar. Há aqui um diálogo possível com a leitura junguiana das funções de avaliação da psique, a que julga e a que dá valor, mas a imagem de Xangô guarda algo que a linguagem psicológica não alcança: a dignidade do trovão, a justiça que também é grandeza e majestade. Esse arco está desenvolvido por inteiro no webinário Xangô e Jung.

Oxóssi, o caçador e a atenção

Escultura de Oxóssi, o caçador, no Parque Catacumba
Oxóssi, Parque Catacumba. Foto: Caio Clímaco, CC BY-SA 4.0.

Oxóssi caça com uma flecha só. A imagem é precisa e vale como definição inteira da função. O caçador que dispõe de uma única flecha não pode errar, e por isso aprende a olhar como ninguém. Oxóssi é o Orixá da mata, da fartura, da caça, e lido como imagem arquetípica ele descreve a função psíquica da atenção dirigida, do foco, da busca que encontra porque sabe esperar e sabe mirar.

A função, declarada, é a da concentração e da busca. A psique que caça como Oxóssi é a que consegue isolar um alvo no meio do excesso, sustentar a mira e agir no momento certo. Numa cultura de dispersão permanente, em que a atenção é capturada e fragmentada o tempo todo, a imagem do caçador de uma flecha só ganha uma atualidade quase clínica. Falta de foco não é fraqueza de caráter, é uma função que não foi cultivada. Oxóssi nomeia o oposto disso, a atenção que se faz disciplina, a busca que confia no próprio tempo. É também o Orixá que sustenta a casa, que garante o alimento, e essa dimensão de provimento integra a leitura: a atenção bem dirigida é o que sustenta a vida material e psíquica de quem cuida de muitos. Esse arco está desenvolvido por inteiro no webinário Oxóssi, a Imagem Arquetípica do Caçador.

Nanã, a ancestral e o ciclo

Ibiri, objeto sagrado do orixá Nanã
Ibiri de Nanã. Domínio público (Toluaye), via Wikimedia Commons.

Nanã é a mais velha. Entre os Orixás, é a anciã, a que vem antes, a dona da lama primordial de onde, na cosmologia, a humanidade foi modelada. E é também quem recebe o corpo de volta quando a vida acaba. Começo e fim na mesma mão. Lida como categoria clínica, Nanã nomeia a função psíquica da ancestralidade e da relação com a origem e com o fim, o tempo profundo da psique, aquilo que é antigo e sustenta sem pressa.

A função, declarada, é a da memória ancestral e da aceitação dos ciclos. Toda psique precisa de uma relação com o que veio antes dela, com os mortos, com a linhagem, com o barro de que é feita. Precisa também aprender que as coisas terminam, que a morte faz parte, que nem tudo se resolve em movimento e conquista. Nanã é o contrapeso de Exu nesse ponto. Onde Exu é trânsito e rapidez, Nanã é decantação, o tempo da lama que assenta. Quando falta essa função, a pessoa vive em recusa do envelhecer, do perder, do acabar, como se pudesse seguir só na pressa sem nunca pousar. Quando ela opera bem, há reconciliação com a finitude e com a herança, e isso tem efeito clínico direto sobre o luto, sobre a relação com os antepassados, sobre o medo da morte.

Aqui o diálogo com Jung pede um cuidado especial, porque é fácil cair na armadilha de dizer “Nanã é a Grande Mãe”. A imagem da Grande Mãe, na leitura junguiana, descreve algo real sobre a psique, o polo materno que acolhe e que também devora. Mas Nanã não cabe inteira nessa categoria. Ela carrega a relação específica com a morte, com a lama, com a ancestralidade negra e indígena, com uma história de resistência que a Grande Mãe genérica europeia não conhece. Reduzir Nanã à Grande Mãe seria repetir exatamente o gesto colonial que este hub recusa. O que se faz aqui é outra coisa, deixar que a imagem de Nanã amplie e corrija o conceito, mostrando o que a teoria não viu. Esse trabalho está desenvolvido por inteiro no webinário Explorando Nanã e Jung.

A translação como método

Falta dizer como tudo isso opera sem virar bagunça nem aparelhamento. A palavra-chave é translação, e a regra é simples de enunciar e difícil de cumprir: traduzir sem reduzir um polo ao outro.

A tentação colonial, já dita, é fazer o Orixá caber dentro do conceito europeu. A tentação inversa, igualmente fácil, é recusar Jung inteiro como teoria branca e jogar fora o que ele de fato descreveu bem. As duas saídas são preguiçosas. O método aqui é o terceiro caminho, aquele que segura os dois campos em tensão e deixa que o atrito produza conhecimento. A base teórica que autoriza essa operação é a noção junguiana de inconsciente coletivo, a camada psíquica que não é propriedade de um indivíduo nem de uma cultura:

O inconsciente coletivo é uma parte da psique que pode distinguir-se de um inconsciente pessoal pelo fato de que não deve sua existência à experiência pessoal, não sendo portanto uma aquisição pessoal. Enquanto o inconsciente pessoal é constituído essencialmente de conteúdos que já foram conscientes e no entanto desapareceram da consciência por terem sido esquecidos ou reprimidos, os conteúdos do inconsciente coletivo nunca estiveram na consciência e portanto não foram adquiridos individualmente, mas devem sua existência apenas à hereditariedade (JUNG, 1934-1955/2020, OC 9/1).

Esse conceito é o que torna a tradução pensável, e também é onde Jung precisa ser lido de modo crítico. A ideia de uma camada psíquica comum a toda a humanidade abre a ponte entre culturas, e foi por essa ponte que muita leitura junguiana atravessou para tratar mitos não europeus. Mas a mesma teoria, quando descuidada, serviu para apagar a especificidade histórica das tradições, dissolvendo tudo num universal que, na prática, tinha sotaque europeu. O próprio Jung, em vários textos, usou a linguagem do “primitivo” de um jeito que hoje não se sustenta. Ler Jung a partir de Exu é, entre outras coisas, devolver a ele essa conta. A tradução bidirecional não é cortesia, é correção de rota.

Esse trabalho tem companhia no Brasil. Nise da Silveira fundou, com a Casa das Palmeiras e o Museu de Imagens do Inconsciente, uma clínica que levou a sério a imagem produzida por quem a psiquiatria descartava, e o fez em solo brasileiro, com gente brasileira. Roberto Gambini estudou o encontro, e o desencontro, entre a psique e o Brasil colonial, e mostrou o quanto o apagamento das matrizes indígenas e africanas deixou marca na alma do país. Este hub se inscreve nessa linhagem, a dos junguianos que se recusaram a aplicar a teoria como carimbo importado e preferiram pensá-la a partir do chão onde pisam.

Encerramento

A encruzilhada não é um lugar de chegada. É o lugar onde os caminhos se cruzam, e ela continua ali depois que você escolheu por onde ir. Talvez seja esse o ponto. Traduzir Jung e as matrizes afro-brasileiras não é fundir os dois numa síntese final, é manter a encruzilhada aberta, com Exu garantindo que a mensagem siga passando e Nanã guardando o tempo de tudo que assenta. O símbolo vivo não se deixa fechar, e ainda bem.

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A base teórica das categorias usadas aqui está em Psicologia Analítica, que descreve os conceitos junguianos centrais (arquétipo, imagem arquetípica, inconsciente coletivo, função transcendente). Para o trabalho sobre negritude, racismo e subjetividade que não passa necessariamente por Jung, o hub específico é Psicologia Preta. A interseção com cultura pop, em especial a leitura de Pantera Negra como afrofuturismo, está em Jung e Cultura Pop. Para definição rápida de termos técnicos durante a leitura, o Glossário Junguiano cobre 22 verbetes com Jung verbatim.

O trabalho de estudo e pesquisa nessa direção acontece no núcleo Encruzilhada, e os webinários sobre Xangô, Oxóssi e Nanã citados acima estão disponíveis no canal do YouTube.

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