Essa reflexão surgiu na clínica essa semana: e era forte demais para ficar só no consultório.
Muitas vezes a gente se prende em certas coisas, tentando lhes dar sobrevida. Um relacionamento que já acabou, mas que a pessoa insiste em ressuscitar. Um padrão de comportamento que claramente não funciona mais, mas que continua sendo repetido. Uma versão de si mesmo que já deveria ter sido superada, mas que a neurose teima em manter de pé.
E aí fica a pergunta: por que é tão difícil deixar certas coisas morrer?
A neurose como roda de hamster
Jung compreendeu a neurose como uma energia psíquica bloqueada uma força que deveria estar em movimento, mas que fica presa, girando em círculos. A neurose nos coloca numa roda de hamster: muito esforço, muito movimento aparente, nenhum avanço real.
Uma das formas mais comuns de neurose que aparece na clínica é exatamente esse padrão de manutenção artificial do que deveria acabar. A pessoa sabe, em algum nível, que aquilo precisa terminar. Mas há um medo muitas vezes inconsciente de que com o fim daquilo, algo essencial em si mesmo também se perca.
E esse medo tem raízes profundas. Porque a morte simbólica ou concreta é, de fato, uma perda real. E luto é difícil.
Xapanã, Obaluaê e Omolu: o arquétipo da morte e da transformação
É aqui que a imagem arquetípica de Xapanã/Obaluaê/Omolu entra com uma potência clínica e simbólica extraordinária.
Na tradição iorubá e em suas variações no candomblé brasileiro, esse orixá é o senhor das doenças, das chagas e da morte. É o rei da terra: aquele que está mais próximo dos mistérios da decomposição e da transformação da matéria. Sua saudação é Atotô silêncio porque seu poder é tão grande que se pede silêncio e respeito em sua presença.
Ele é, a um só tempo, o que destrói e o que cura. O que mata e o que transforma.
Na leitura que fazemos no Encruzilhada: nosso núcleo de estudos junguianos com perspectiva decolonial.Obaluaê/Omolu funciona como uma imagem arquetípica que nos ensina algo fundamental: não há transformação sem morte. Não há nascimento sem o fim de algo anterior.
Dois aspectos do mesmo arquétipo
Simplificando muito porque a tradição é complexa e merece respeito , podemos identificar em Obaluaê e Omolu dois aspectos distintos que coexistem nessa imagem arquetípica.
Obaluaê representa o aspecto mais jovem: a transformação em andamento, a doença que ainda pode ser curada, a mudança possível, a evolução. É o fogo da transformação ainda vivo.
Omolu representa o aspecto mais antigo, mais profundo: a morte consumada, a decomposição necessária, o retorno à terra. É o que a natureza faz quando algo precisa ser dissolvido para alimentar o novo.
Juntos, eles nos dizem que a vida e a morte não são opostos absolutos, mas parceiros de um mesmo ciclo. O novo só chega com a partida do velho. O velho só se renova a partir do novo.
Mas não estou falando de morte do ego
É importante deixar claro: quando falo de morte aqui, não estou falando do discurso muitas vezes problemático de “morte do ego” que circula em certos contextos de espiritualidade e psicologia. Esse discurso pode ser perigoso e frequentemente é usado para dissolver a capacidade crítica e os limites saudáveis das pessoas.
Estou falando de ciclos, atitudes, comportamentos, padrões relacionais, crenças sobre si mesmo: uma infinidade de coisas que, em determinado momento da vida, precisam chegar ao fim para que haja mudança e crescimento real.
Não o sujeito que morre. Mas a versão de si mesmo que já não serve mais.
Respeitar os fins e as feridas que eles causam
Uma das coisas que aprendo continuamente na clínica é a importância de respeitar os fins.
Vivemos numa cultura que glorifica a superação rápida, o “virar a página” imediato, a resiliência instantânea. Mas os fins autênticos o fim de um relacionamento, de uma fase da vida, de uma crença central sobre si mesmo: deixam feridas reais. E essas feridas precisam de tempo, de espaço, de luto.
Tentar pular esse processo não acelera nada. Pelo contrário: o que não é chorado, não é enterrado. O que não é enterrado, não pode se transformar. E o que não se transforma, fica assombrando.
Atotô o silêncio que permite a transformação
Atotô. Silêncio. É a saudação ao rei da terra.
Há algo profundamente sábio nisso. O silêncio não é ausência: é presença plena diante do que é sagrado e misterioso. É a disposição de parar, de respeitar, de reconhecer que algo maior do que nossa vontade imediata está operando.
E muitas vezes é exatamente isso que precisamos para permitir que certas coisas morram, nasçam e se transformem: parar de tentar controlar o processo. Sentar com o desconforto. Confiar que do fim pode nascer algo novo.
Uma pergunta para você: que coisa em sua vida está pedindo para morrer: e você ainda resiste em deixar ir?
Atotô.
Este artigo foi inspirado em uma reflexão publicada originalmente no meu Instagram. Confira o post original abaixo:





