Eu vi uma imagem essa semana que não me deixou em paz. Uma daquelas que atravessam o scroll e ficam reverberando na cabeça e na clínica.
A imagem trazia Exu, o orixá das encruzilhadas, e junto dela uma provocação que sintetizava algo que observo há anos no consultório: a ideia de que sofrer é virtuoso. De que quanto mais você suporta, aguenta e se sacrifica, mais você é digno, forte, bom.
E o prazer? Ah, o prazer é coisa do diabo. Literalmente.
A moralidade do sofrimento como herança colonial
Não é por acaso que chegamos até aqui. Séculos de catequização cristã — sobretudo em sua versão colonial, que chegou ao Brasil como instrumento de dominação construíram uma cosmologia onde o corpo é pecado, o prazer é fraqueza e o sofrimento é santidade.
Isso está profundamente enraizado na psique coletiva brasileira. A gente aprende desde cedo que reclamar é frescura, que descansar é preguiça, que se divertir demais é irresponsabilidade. Que quem sofre mais, merece mais. Que a vida é uma cruz a ser carregada.
Você se reconhece nisso?
Quando foi a última vez que você se permitiu sentir prazer não como recompensa por ter sofrido o suficiente, mas simplesmente porque a vida também é feita disso?
A Sombra e o prazer reprimido
Na Psicologia Analítica de Jung, chamamos de Sombra o conjunto de aspectos da psique que foram rejeitados, reprimidos ou considerados inaceitáveis. A Sombra não é necessariamente “ruim” ela contém tudo aquilo que a cultura, a família e o contexto nos disseram que não deveríamos ser.
E quando uma cultura inteira decide que o prazer é pecado, que o corpo é impuro, que gozar a vida é falta de seriedade… adivinha onde vai parar tudo isso?
Na Sombra. Coletiva e individual.
O resultado é uma psique que desconfia do próprio bem-estar. Que, quando começa a se sentir bem, logo interpreta isso como sinal de que algo está errado ou de que o castigo está a caminho. Que sente culpa quando descansa. Que vê no sofrimento alheio não uma tragédia, mas uma prova de caráter.
Isso não é saúde mental, as vezes é neurose institucionalizada.
Exu como imagem arquetípica da vitalidade
É aqui que a imagem de Exu entra com uma potência particular.
Exu é o orixá da encruzilhada, da comunicação, do movimento, da abertura de caminhos. Ele é também o orixá que foi deliberadamente demonizado pelo processo colonial transformado em “diabo” justamente porque encarnava aquilo que a colonização precisava suprimir: a vitalidade, o prazer, o corpo, o imprevisível, o não-domesticado.
No projeto do Encruzilhada nosso núcleo de estudos junguianos com perspectiva decolonial temos explorado exatamente essas pontes: como as imagens arquetípicas presentes nas tradições afro-brasileiras dialogam com os conceitos da psicologia analítica de maneiras que ampliam e aprofundam nosso entendimento da psique.
Exu, nessa leitura, funciona como uma imagem arquetípica que recusa a dicotomia entre sagrado e profano. Ele é os dois ao mesmo tempo. Ele é a encruzilhada onde os opostos se encontram não para se anularem, mas para criarem movimento.
O que vejo na clínica
Na psicoterapia, esse padrão aparece de formas muito concretas. Pessoas que não conseguem descansar sem sentir culpa. Que interrompem o próprio prazer com pensamentos sobre o que ainda precisam fazer. Que se boicotam quando algo começa a dar certo. Que, no fundo, acreditam que não merecem sentir bem.
Uma das perguntas que faço com frequência no consultório é: O que acontece dentro de você quando as coisas estão indo bem?
As respostas são reveladoras. Muita gente começa a esperar o pior. A criar problemas onde não existem. A se sabotar. Como se o bem-estar fosse um crédito que logo precisará ser pago com sofrimento.
Isso é a Sombra do sofrimento-como-virtude operando em tempo real.
Sagrado e profano: uma falsa dicotomia
A perspectiva junguiana — e especialmente quando enriquecida pelas tradições afro-brasileiras — nos convida a questionar essa divisão.
O processo de individuação, que é o movimento central da psicologia analítica, não passa pela negação do prazer ou pela glorificação do sofrimento. Ele passa pela integração dos opostos: o sagrado e o profano, a luz e a Sombra, o sofrimento e a alegria.
Não se trata de negar que o sofrimento existe ou que ele tem seu lugar na existência humana. O sofrimento é real, e a psicoterapia trabalha com ele com seriedade e cuidado.
Mas uma coisa é reconhecer o sofrimento quando ele acontece. Outra, muito diferente, é elevá-lo à condição de virtude — e transformar o prazer em pecado.
Que possamos nos perguntar: quais prazeres eu me proibo? Quais alegrias eu interrompo com culpa? E de onde vem essa culpa ela é minha, ou eu a herdei?
E que possamos, pouco a pouco, nos tornar sagrados e profanos ao mesmo tempo. Gozando a vida com tudo que ela tem.
Este artigo foi inspirado em uma reflexão publicada originalmente no meu Instagram. Confira o post original:





