Setembro é o mês em que o amarelo toma conta das redes sociais, dos crachás nos consultórios, das fitas nas lapelas. Mas antes de seguir em frente, quero te fazer uma pergunta direta: quando você vê esse amarelo, o que você sente?

Para muitas pessoas, é um lembrete incômodo. Para outras, é um convite ao silêncio. E para algumas  aquelas que carregam a dor mais fundo  é, talvez, a primeira vez que alguém aponta e diz: esse assunto existe, e você não está sozinho nele. É exatamente esse o propósito do Setembro Amarelo: abrir espaço para uma conversa que o mundo ainda aprende a ter.

De onde vem o Setembro Amarelo?

A campanha foi criada no Brasil em 2015 a partir de uma iniciativa conjunta do Centro de Valorização da Vida (CVV), do Conselho Federal de Medicina (CFM) e da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). A cor foi escolhida em referência a Mike Emme, um jovem americano que faleceu em 1994 e cujo carro favorito era amarelo. Seus amigos distribuíram fitas da cor em seu velório como gesto de afeto e memória  e o símbolo viajou pelo mundo. No Brasil, o movimento cresceu de forma impressionante. Hoje somos referência global em mobilização sobre o tema. Mas mobilização, por si só, não salva vidas. O que salva é a conversa. A escuta. A presença.

O que os números nos dizem e o que não nos dizem

O suicídio é a quarta maior causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde. No Brasil, mais de 13 mil pessoas morrem por suicídio a cada ano. Para cada morte, estima-se que outras 10 a 20 tentativas aconteçam.

Esses números são importantes para dimensionar o problema. Mas os números não têm rosto. Não têm a voz cansada de um amigo que foi sumindo das conversas. Não têm o sorriso forçado de quem aprendeu a esconder a dor atrás de uma persona perfeita. É aqui que a Psicologia Analítica tem algo essencial a dizer.

A perspectiva junguiana: quando a Sombra engole a luz

Carl Gustav Jung descreveu a Persona como a máscara que apresentamos ao mundo  o papel social que desempenhamos para pertencer, para ser aceito. Muitas pessoas que sofrem com pensamentos suicidas tornaram-se especialistas em manter essa máscara intacta enquanto, por dentro, a Sombra  esse conjunto de conteúdos psíquicos que negamos e escondemos, vai tomando proporções esmagadoras.

Jung dizia que o que não se integra, retorna com força dobrada. A dor que não encontra expressão, que não tem testemunha, que não recebe nome, se aprofunda no inconsciente. Com o tempo, pode manifestar-se como um desejo de cessar  não necessariamente de morrer, mas de parar de sofrer, de encontrar alívio.

Existe uma diferença sutil, mas fundamental, entre o desejo de acabar com a vida e o desejo de acabar com a dor. Quando conseguimos acolher isso sem julgamento, sem pânico abrimos uma janela para uma outra conversa.

Como reconhecer os sinais

Um dos maiores mitos sobre o suicídio é que as pessoas que pensam nisso nunca avisam. Avisam, sim  mas muitas vezes de formas que não sabemos ler. Alguns sinais que merecem atenção:

O poder de perguntar

Existe um medo comum de que falar sobre suicídio possa “dar a ideia”. A ciência é clara: perguntar não induz. Perguntar acolhe.

Você pode dizer: “Tenho pensado em você. Quero perguntar diretamente: você está tendo pensamentos de se machucar?”

Sim, é desconfortável. Mas essa pergunta pode ser o que separa alguém de se sentir invisível de se sentir visto  e isso, às vezes, é tudo o que precisa acontecer naquele momento. Se a resposta for “sim”: não entre em pânico, não minimize, não diga “mas você tem tantas coisas boas na vida”. Ouça. Fique presente. Ajude a pessoa a buscar apoio profissional.

Setembro Amarelo é também sobre nós

Quando falamos em prevenção ao suicídio, tendemos a pensar no outro. Mas o Setembro Amarelo é também um convite para olharmos para nós mesmos.

Como está a sua relação com a própria dor? Você tem espaço para sentir sem se julgar? Tem pessoas com quem se abrir de verdade  não apenas para receber “estou bem” como resposta?

Jung falava do processo de individuação como o caminho de tornar-se quem se é: integrar as partes negadas de si mesmo, construir uma vida com sentido genuíno não apenas aparência de sentido. Esse caminho, quando trilhado com honestidade e apoio, é em si uma forma poderosa de cuidado da saúde mental.

Cuidar da alma não é fraqueza. É o ato mais corajoso que existe.

Onde buscar ajuda

Uma palavra final

O amarelo de setembro não precisa ser apenas simbólico. Ele pode ser o começo de uma conversa real: na sua família, no seu grupo de amigos, na sua clínica, na sua sala de aula.

Cada vez que alguém se sente visto, ouvido e acolhido em sua dor mais funda, algo essencial acontece: a alma respira. E onde há respiração, há vida.

Se este texto chegou até você, talvez seja a hora de fazer aquela pergunta  para alguém, ou para si mesmo.

Eu Jordan Vieira sou  psicólogo clínico junguiano, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, com mais de 13 anos de atuação clínica e educacional e sobrevivente de uma profunda depressão com ideias de autoexterminio por mais de 3 anos;.

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