Exú: A Imagem Arquetípica e a encruzilhada entre Consciência Racial e Negritude

Introdução

Laroyê Exu!! Exu é sempre o primeiro!

A palavra “Exu” ressoa com ecos de uma sabedoria ancestral, originando-se do termo yorubá “Èṣù”, que evoca a imagem de uma “esfera” ou “entidade esférica”. Esta etimologia nos oferece uma janela para a natureza dual, multifacetada e abrangente de Exu, afinal ele é o começo e o fim, uma entidade que desafia as tentativas de ser confinada a uma única definição ou interpretação.

No coração pulsante da mitologia africana, Exu se destaca como o mensageiro dos orixás, o guardião das encruzilhadas e o mestre da comunicação. Mas Exu é mais do que um personagem mitológico; ele transcende como um símbolo poderoso de negritude, consciência racial e aquilomabmento . Este artigo se propõe a explorar a imagem arquetípica de Exu, sua relação com outros elementos simbolicos e sua relevância inegável na luta contemporânea pela identidade e justiça racial.

Exu- O senhor da encruzilhada entre a psiquê e o mundo

Exú , uma figura central na mitologia africana, especialmente no panteão iorubá, é frequentemente mal interpretado devido às complexidades de sua natureza e papel, que foi sequivocadamente associado a figura cristã do diado.

Etimologicamente, a palavra ‘Exu’ deriva de uma raiz linguística iorubá que evoca noções de movimento, dinamismo e transformação.Exu é cultuado pelo povo iorubá e em cultos afro-descendentes, como no candomblé baiano, em algumas Umbandas e no tambor de mina maranhense,por exemplo, embora outras qualidades ou representações de exu possam ser encontradas em outros movimentos religiosos

Vale ressaltar , que a imagem arquetípica de Exu é uma manifestação cultural específica que carrega consigo os valores, histórias e crenças dos povos aos quais ele vai sendo sumbetido historicamente. Enquanto potencial arquetipíco, Exu se alinha com figuras como o Trickster e o Psicopompo, conhecidos em diversas culturas por sua astúcia, habilidade de transitar entre mundos e papel como catalisadores de mudanças e consciência.

A imagem arquetípica de Exu, portanto, serve como um guial para o entendimento mais profundo da psique coletiva, não somente africana, mas sobre como a sua expressão singular tem bastante potência na tapeçaria da psique afrobrasileira.

Exu e a Psique Coletiva

A figura de Exu na psique coletiva transcende a mera representatividade cultural, assumindo um papel psicológico significativo como o Trickster. Na psicologia analítica, o Trickster é uma classificação de arquétipo que representa o potencial de transformação, ambiguidade moral e a capacidade de subverter a ordem estabelecida. Exu, com sua natureza dual e imprevisível, encarna essas qualidades, desafiando normas e provocando mudanças necessárias para o crescimento e evolução.

Além disso, Exu compartilha características com outros psicopompos , os tão famosos guias de almas, mitologica e simbolicamente, de diferentes tradições, como Hermes na mitologia grega, apenas como exemplo. Essas figuras arquetípicas funcionam como mediadores entre o consciente e o inconsciente, o divino e o mortal, desempenhando um papel crucial no processo de trasnformação e desenvolvimento da psique;

Para a comunidade afrodescendente, tendo ou não contato com religiões de matriz afro, Exu tem o potencial de atuar como um catalisador para a consciência racial e a reafirmação da identidade negra, encorajando a exploração e a integração de aspectos muitas vezes marginalizados ou reprimidos seja sócio históricamente, ou elementos da psique individual ou coletiva.

Exu e a Negritude

Na mitologia africana, é frequentemente associado à resistência e à afirmação da identidade negra. Sua imagem arquetípica, carregada de complexidade e poder, tornou-se um símbolo de empoderamento para muitos afrodescendentes.

No contexto do movimento da negritude, que surgiu como uma resposta ao colonialismo e à opressão racial, Exu representa a resiliência e a capacidade de navegar e subverter sistemas opressivos, principalmente atraves de sua astúcia e eloquência.

A cultura afrodescendente, rica em tradições e mitos, encontra em Exu uma fonte de inspiração e identificação. Mitos que envolvem Exu frequentemente destacam sua astúcia, sua habilidade em comunicar-se e negociar entre diferentes esferas, e sua essência transformadora.

Essas histórias não apenas reforçam a importância de Exu na consciência racial, mas também servem como ferramentas educativas e de afirmação cultural para as comunidades negras, promovendo um maior entendimento e valorização de suas raízes e herança.

Aquilombamento e a Imagem de Exu

O conceito de aquilombamento, que remete historicamente a formação de comunidades de resistência por escravizados fugitivos no Brasil, encontra um paralelo simbólico na figura de Exu. Assim como os quilombos serviram de refúgio e espaço de liberdade para os escravizados, Exu representa a liberdade de movimento, a transgressão de limites e a resistência contra a opressão.

A imagem arquetípica de Exu, portanto, ressoa com a experiência histórica e contemporânea da diáspora africana, fornecendo um símbolo de resistência, resiliência e empoderamento. Ao abraçar a complexidade e a sabedoria inerentes à imagem de Exu, podemos avançar na jornada para uma maior consciência racial e celebração da negritude.

Exu Hoje: Relevância Contemporânea e Perspectivas Futuras

A relevância contínua de Exu na sociedade contemporânea é inegável, especialmente em relação à consciência racial e negritude. As perspectivas futuras sobre como a imagem arquetípica de Exu pode continuar a influenciar e inspirar movimentos sociais e individuais são promissoras e merecem atenção.

Nos ultimos anos temos observado uma maior abertura para incorpação de Exu enquanto imagem arquetipica em diversos contextos, mesmo com todo o preconceito envolvido. Um bom exemplo disso, é a quantidade de vezes que não só Exú, mas outras figuras da religião africana tem ganhado destaque em anos recentes no carnaval carioca

Conclusão: Exu abre caminho para a jornada de consciêntização racial

Em conclusão, a imagem arquetípica de Exu oferece uma potêncialidade, através da qual podemos explorar questões de identidade, poder e transformação. Seu papel na mitologia africana e na psique coletiva ressoa profundamente com as lutas e aspirações da comunidade afrodescendente, fornecendo um símbolo de resistência, resiliência e empoderamento.

Ao abraçar a complexidade e a sabedoria inerentes à imagem de Exu, podemos avançar na jornada para uma maior consciência racial e celebração da negritude.

Exu, com sua complexidade e multiplicidade, transcende a noção de uma simples divindade. Ele é uma imagem arquétipica que ressoa com as lutas e aspirações da diáspora africana, servindo como uma ponte entre o passado mitológico e as realidades contemporâneas de negritude, consciência racial e aquilombamento.

Sua imagem arquetípica oferece uma fonte de inspiração e empoderamento, iluminando o caminho para uma compreensão mais profunda da identidade e justiça racial.

Exu matou um passaro ontem com uma pedra que só jogou hoje”,

Essas frase é essencial para que possamos entender que ao agirmos no presente, nos conscientizando e autoderminado cada vez em direção a negritude, atingiremos o cruel passáro do rac1smo, e mesmo que não o matemos, certamente enfraquecemos as algemas historicas que ele nos impõe

Síntese do Artigo

Exu emerge como uma figura central na mitologia africana, não apenas como uma entidade mitológica, mas como um símbolo arquetípico de comunicação, transformação e resistência. A etimologia de seu nome reflete sua natureza complexa e multifacetada, que se entrelaça com os conceitos de negritude, consciência racial e quilombismo. Ao explorar as várias facetas de Exu, revela-se uma imagem arquetípica que transcende o tempo e o espaço, oferecendo insights valiosos para a compreensão da diáspora africana, os impatos dela até os dias atuais.

Lembrando o famoso ditado”

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